Reportagem sobre Síndrome do Pânico e doenças relacionadas a ansiedade

No começo do ano passado (Maio de 2015) eu cursei a matéria “Oficina de Mídia II” com a professora Claudiane Carvalho, na FSBA (Faculdade Social da Bahia, onde me formei). O desafio era construir uma reportagem completa, com direito à fala de 2 especialistas e 2 personagens. A princípio tentei entrevistar Antropólogos para deixar a reportagem mais completa e contemporânea. Mas não foi possível. A UFBA estava em greve e não pude ter contato com nenhum profissional. Mas nem por isso a reportagem foi esclarecedora.

Também fiz vídeos-entrevistas, que irei postar depois que acha-los em meu HD externo. Tenho certeza que será de muito bom gosto e poderá trazer muitos esclarecimentos sobre essas “síndromes” tão comuns na atualidade.

Segue a matéria na íntegra:

Síndrome do Pânico: frescura ou algo sério?

Imagine-se saindo de casa para ir trabalhar. De repente, um pavor imenso toma conta de você. Não por ter visto algo ameaçador, não. Você procura e não acha nada. Seu coração começa a bater forte, bem no seu pescoço, na sua garganta. A sensação é de sufocamento, tem algo apertando muito forte seu pescoço, você não consegue respirar. Parece que você simplesmente vai morrer ali. Você está na metade do caminho para chegar no serviço, mas o sentimento de “volte para casa” palpita forte em sua mente. Lá é o único lugar que vai ficar seguro. Você dá meia volta e arruma um transporte para chegar e casa e se esconder embaixo dos travesseiros. Assim acabando com o tormento. Imagine viver uma situação assim? Como você reagiria?

Triste realidade

A situação acima, da forma como é descrita, deixa qualquer um sem entender como alguém normal pode vivenciar algo assim tão drástico. Mas essa é a triste realidade de quem sofre com a “síndrome do pânico”, que faz parte de uma série de transtornos assimilados com a ansiedade. Especialistas afirmam que esse transtorno atinge cerca de 3% da população mundial, segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde).

Essa é a triste realidade de Magaly, que é auxiliar administrativo e que trabalha atualmente em um grande hotel de Salvador. Hoje ela se sente à um passo da cura, mas para isso, ela passou por mal bocados.

magali

Magaly conta como sentia o coração bater bem em sua garganta

Em 2007, durante visita à família no interior do Estado, ela viu seu tio morrer bem ao seu lado, num posto de saúde, buscando ser atendido por conta de um mal-estar. A demora foi tão grande que ele morreu antes mesmo de ter sido atendido, ele enfartou ali mesmo, ao lado dela. Depois do ocorrido, de volta à capital, Magaly começou a sentir dores no peito, segundo ela, “era como se estivesse sentindo os mesmos sintomas que meu tio naquele dia”. “Mas mesmo assim, procurei um cardiologista e estava tudo normal, me indicaram procurar um psicólogo e logo comecei a fazer psicanálise”, conta.

Mas as dores não passavam e ela foi instruída pela psicanalista a procurar um psiquiatra. “Para mim foi péssimo, apesar de me entender plenamente com a psiquiatra, as pessoas ao meu redor não compreendiam os remédios de tarja preta que eu precisava tomar”, explica Magaly que na época trabalhava em uma maternidade em Pau da Miúdo, a falta de entendimento da administração da empresa em relação ao seu estado psicológico, levou à sua demissão.

“Minha salvação foram os antidepressivos e a atividade física, tudo receitado pela minha psiquiatra, a dra. Penha”, conta. Mas mesmo com os remédios, a melhora não veio na mesma hora, segundo Magaly, a médica havia receitado 8 dias de repouso, tempo suficiente para a medicação fazer efeito. “Mas mesmo com os remédios, tinha dias que na volta do trabalho eu sentia que ia morrer no ponto de ônibus e era forçada a entrar em um táxi para me meter no meio dos travesseiros e chorar”.

Como é que se descobre a síndrome na Psiquiatria e na Psicanálise?

Apesar de ser considerada sim uma doença, enquadrada nos Transtornos Fóbico-ansiosos pela OMS, existe muita discussão em relação ao diagnóstico e quanto ao tratamento, tanto na psiquiatria como na psicanálise, ramos que normalmente trabalham em conjunto.

Segundo Dr. Saulo Merelles, psiquiatra na Fundação de Neurologia e Neurocirurgia da Bahia, a Síndrome do Pânico é um dos diversos transtornos de ansiedade possíveis, cujo a característica principal é a recorrência de crises de pânico. Segundo ele, “são enxurradas de pânico e de medo, que vem de forma súbita e que dura por poucos minutos, que a pessoa cometida nessa crise de pânico tem a sensação de morte iminente ou de que vai enlouquecer, de que vai perder o controle”.

Para que o psiquiatra possa diagnosticar a síndrome, é necessário um olho clínico treinado. “As doenças psíquicas de uma maneira geral, são diagnosticadas a partir de um exame clínico, a partir da avaliação do médico, dos sintomas que ela tem, e do que ela está experimentando como vivência interna, é isso que sustenta o diagnóstico em psiquiatria”, esclarece Dr. Merelles. Segundo ele “Os exames complementares são usados somente para se excluir outras doenças, como por exemplo, tumores que podem liberar hormônios de maneira muito rápida, podendo ser confundido com sintomas do pânico”.

dr saulo

Dr. Merelles, psiquiatra, explica a importância do medicamento na Síndrome do Pânico

E já segundo a Psicanalista, Dra. Andrea Hollnagel, que atende em clínica própria, para a psicanálise, não existe a síndrome do pânico. Segundo ela “essa nomenclatura é um artifício para a medicalização, somente. “A pessoa se encontra com um certo nível de angústia que ela não suporta, e aí ela busca se defender ao máximo, convivendo com a sensação que vai morrer, então ela foge de tudo que faça com que ela sinta isso de novo”, explica.

dr andrea

Dra. Hollnagel explica o papel da psicanálise junto ao tratamento das crises de ansiedade

Mesmo com toda essa diferenciação entre as medicinas, há uma compreensão que faz com que os dois ramos trabalhem paralelamente. “O acompanhamento de um psicanalista, associado com as medicações traz amadurecimento pessoal ao paciente”, explica Dr. Merelles. “É junto com a terapia que a medicação começa a dar efeito, os dois caminham juntos”, conta.

Medicação: um mal necessário

Para tratar um transtorno dessa dimensão, é necessário além de um acompanhamento psicológico, fazer associação com medicação. Segundo o psiquiatra, é possível conseguir uma melhora momentânea a partir das medicações tranquilizantes, como os calmantes, os benzodiazepínicos, conhecidos como traja preta, que são aqueles que acalmam em minutos. “Mas esses medicamentos só servem para ‘apagar o incêndio’”, explica Dr. Merelles. “O tratamento mesmo é feito com medicações chamadas antidepressivas, que possuem tarja vermelha, e que demoram em torno de 15 dias para funcionar”, conta.

E mesmo com o diagnóstico feito por um profissional experiente, nem sempre a medicação se ajusta à necessidade ou ao organismo do paciente. “Nem sempre as pessoas têm essa resposta imediata, as vezes pode demorar 3 semanas ou 4, em outras vezes é necessário mudar a medicação, ou fazer associação de 2 ou mais, para que aquele paciente encontre um ‘conforto’ para seus sintomas”, informa o psiquiatra.

Para que alguns medicamentos façam efeito, é realmente necessária a participação do psicanalista nessa “jornada”. A Dra. Hollnagel conta que a maioria dos seus pacientes com “crises de pânico” chegam a ela indicadas por psiquiatras. “O trabalho que fazemos aqui é justamente o de conectar o paciente com seu problema, ela precisa descobrir como chegou a isso e admitir que realmente tem um problema”.

Dr Saulo ressalta que o uso da medicação tarja preta não deve ser crucificada, mas alerta “as medicações tranquilizantes não devem ser mantidas a longo prazo por apresentarem riscos a memória do paciente, mas ele realmente traz muitos benefícios durante o tratamento do paciente”. “Mas é claro que se pudermos manter outro tipo de medicação para o bem-estar da pessoa, é preferível”, completa.

Um medo pontual

Para dona Angélica*, uma aposentada de 86 anos, a vida sempre seguiu tranquila. Sempre se sentiu segura em seu apartamento no terceiro andar, rodeada de portas e trancas. De repente ela se viu refém de um assalto à sua fortaleza. “Do nada eu vejo dois sujeitos adentrando minha casa, sem meu consentimento, e mandando todo mundo ficar calmo”, conta. “Estávamos eu, minha filha, minha nora e mais duas secretárias do lar, e apesar de não estar no mesmo andar, meu neto dormia e os ladrões sabiam disso, ameaçaram matar todas nós se ele acordasse e descesse para onde estávamos”, descreve de forma apavorada, ao lembrar daquela manhã, há 5 anos atrás.

Apesar de saber que sofre com a síndrome do pânico, Dona Angélica buscou somente ajuda com um cardiologista, em vez de consultar outras especialidades. “Para mim, o melhor tratamento para esse tipo de medo é a varanda, aqui eu consigo esquecer que na verdade, não tenho mais coragem de andar na rua sozinha”, conta.

A síndrome do pânico, no caso de Dona Angélica, surgiu por conta de um evento “pontual” em sua vida, igual ao caso de Magaly. De acordo o psiquiatra “a síndrome do pânico pode ocorrer em qualquer faixa etária da vida, mas é claro que a pessoa pode ter uma propensão genética e em um evento na vida, ele pode ser deflagrado, mas nem sempre esse evento na vida está presente”.

Apesar dos especialistas em psiquiatria e neurologia concordarem que ainda não existem estudos suficientes do genoma humano que possam apontar exatamente onde está essa propensão para desenvolver a síndrome, o paciente não deve procurar uma “causa” ou “um evento pontual”. Segundo o Dr. Merelles “uma eclosão de sintomas espontâneos, sem nenhum evento na vida, assim como um episódio depressivo, pode acontecer sem nenhuma causa pontual”. “As pessoas estão acostumadas a procurar ‘o que foi que aconteceu’, ou seja, uma causa para que a pessoa apresente os sintomas, muitas vezes a explicação causal pode ser encontrada junto com a psicologia”, explica.

Já na psicanálise, o diagnóstico é diferente. Segundo Dra. Hollnagel “na psicanálise o diagnóstico não é o primeiro objetivo, pois tudo o que é dito dentro do consultório é tomado como verdade”. “Então cada palavra do paciente e a forma com que ele traz aquilo e nós desenvolvemos com ele, para que ele ouça o que está dizendo, e para que ele vá dando outro sentido às coisas que ele está dizendo, por isso não diagnosticamos logo de cara, não damos ‘nomes’, por assim dizer”, constata.

E essa síndrome é realmente é algo sério?

Mesmo com uma gama inteira de estudos e constatações, ainda há um certo preconceitos com pacientes que sofrem de Síndrome do Pânico, principalmente no Brasil. De acordo com a Dra. Andrea, sofrer com o Pânico não é besteira nem frescura, é algo realmente sério. “A síndrome do pânico tem sintomas que ‘impedem’. E imobilizam a pessoa, faz com que ela não consiga realmente sair de casa, é algo totalmente ‘impeditivo’”, explica.

Nisso a psicanálise concorda totalmente com a psiquiatria, “a pessoa vive num estado mental onde ela parece estar sempre sendo avaliada pelos outros, é algo que tira todas as defesas naturais do ser humano que vive em sociedade”, afirma Dr. Saulo.  “Não há nada de normal conviver com esses sintomas que são tão fortes que acometem quem convive com o pânico”, completa.

Então, a única forma de buscar um tratamento para as crises é consultando um profissional, enfrentando o medo e o preconceito que a sociedade desenvolveu contra que sofre de transtornos psiquiátricos. Com o diagnóstico correto, é possível sim, conseguir conviver com o transtorno e buscar a cura.

 

*O nome da personagem foi alterado para manter o sigilo

medo

Foto: Reprodução

Peço perdão pela qualidade do foco do primeiro vídeo, o foco estava no automático, ele tinha pouco tempo e era a primeira vez que usava meu material (microfone de lapela, tripé e câmera) para esses fins.



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